É difícil dar a benção a alguém, sem saber que tipo de infâmias já cometeu. Eu digo: deus nosso senhor te abençoe, e juro que as vezes sinto o colarinho a tentar sufocar-me, como se fosse eu o culpado de todo o mal no mundo, como se ao abençoar quem não deve ser abençoado estivesse a compactuar com os seus pecados. Sempre fui um homem devoto a deus e à santa igreja. Jesus é meu irmão e tu também.
O que é que eu posso fazer quando no confessionário os crentes me contam o que não contam a mais ninguém, na esperança de receberem a redenção divina em troca de uns avé-marias e pais-nossos? Só posso acreditar que aquilo são de facto os seus piores pecados, e satisfazê-los, dando-lhes 20 avé-marias por aborto e 50 pais-nossos por violações ou homicídios. Deus nosso senhor te perdoa meu filho, pois é essa a tua vontade. Jesus morreu pelos teus pecados. E pelos meus também.
Às vezes quando estou a dar a missa sinto o cheiro a sexo e sujidade e podridão que emana das pessoas, e sinto o chão debaixo de mim abrir-se e tenho que rezar silenciosamente enquanto falo sobre a religião que tão piamente me acredito. Às vezes tenho medo de vomitar no altar, quando ouço os murmúrios que só uma igreja cheia de rezas pode fazer. Vejo caras deformadas pedir ajuda quando não a merecem. Aos olhos de deus somos todos iguais.
Quando apanho um ou outro sozinho a rezar, um que já a mim se tenha confessado, dou-lhe uma pancada na cabeça com o crucifixo e arrasto-o para os interiores da igreja. O único luxo a que me dou é colecionar objectos utilizados pelos inquisidores. Todos me pedem a benção e todos a recebem. Sempre fui um homem de deus.
domingo, 21 de março de 2010
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