Esta rapariga deitada à minha frente não tem nome. Encontraram-na morta, no meio de uma floresta. Completamente nua e, como mais tarde se comprovou, violada. Vejo a sua cara, tão real perante mim e pergunto-me porque não terá ela direito a um nome. Faz agora parte de um todo, perdeu a sua identidade. A sua morte e a morte do seu nome tornou-a num ser abstracto, apesar de qualquer um a poder ver, qualquer um poder tocar na sua carne roxa e congelada.
Este ser à minha frente não passa agora de alimento para insectos, faz parte de todo um grande plano universal, esquecida para sempre. A sua existência de tão grandiosa que é será para sempre ignorada, o seu nome desaparecido nas correntes do tempo não será mais do que uma memória de quem a conheceu e também se transformou em memória. Todos os nomes morrem.
Será que se esta não-nada que eu vejo tivesse tido outro nome poderia ter tido outra vida? Poderia ainda estar viva? O que é um nome, senão uma palavra que podia ter sido outra qualquer.
Tivesse eu outro nome e estaria a escrever isto? Violaria eu esta Jane Doe?
domingo, 21 de março de 2010
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Que fado aborrecido esse que conduz ao esquecido
ResponderEliminarPois sem memória ter, não pode provar o ser
Renuncia ás horas que tiveste, dias que nunca viveste
Será pior o nome perder a memória, ou a memória perder o nome?
Continua!