O que foi dito

sábado, 20 de março de 2010

As larvas e os ratos

No meio de larvas e ratos
o homem sentia-se prisioneiro
na sua própria alma
sentia as larvas e os ratos
presos dentro de si
e chorava...

O seu corpo uma mera
transparência projectava
sombras na parede,
sombras de uma estória
inacabada
sombras que ele tentava
apagar, desligando a luz.

As larvas e os ratos
banqueteando-se no seu corpo
um festim de podridão
feridas abertas e pustulentas
e os olhos do homem postos
no céu num último acto de fé.

"Perdoa-me senhor"
berrou ele ao céu brilhante
e azul e cinzento e num reflexo
viu a sua face leprosa,
carne virulenta caindo direita ao céu,
num fluxo contínuo de vermelho e roxo.
E a linha recta que se criou,
espaço aberto no tempo que não havia,
que não lhe restava,
proporcionou-lhe um último vislumbre,
antes de os olhos se fecharem.

E ele viu e olhou bem o espelho,
junto ao seu torso já espezinhado,
olhou o espelho e viu um resquício
do que já havia sido um resquício
de quem fora e as lágrimas secaram.

Agora ele era as larvas e os ratos.

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