O que foi dito

terça-feira, 23 de março de 2010

A cidade à tarde

A cidade à tarde de phones nos ouvidos
a realidade engolida pela música
dentro de um autocarro
que cheira a velhos.

O sol torna tudo laranja sujo
nesta cidade de metal
cheia de aparelhos e engrenagens
ruas como puzzles prédios como falos
erguem-se guiam-me consomem-me educam-me
as pessoas falam de mim e eu de phones nos ouvidos
a cabeça abana com a cadência motora que abana
a decadência humana

Os passeios cheios de merda e pássaros
cheira a jardim cheira a relva seca
cheira a rio e esgoto
as pessoas formigas braços dados em comunhão
bicicletas rodas armas tecnologia em mim
somos todos um robô, olhos e cabeça estáticos
pensa por mim sinal diz-me quem sou publicidade

A cidade à tarde todo o seu esplendor
fatos de treino e fatos às linhas
armanis e guccis passam por mim
e ardidas e todos se riem
um lugar completo, quentes por dentro
sabem quem são por hoje.

Os prédios crescendo e crescendo
erecções de putos em direcção ao céu
casas e casas e casas e casas e casas vazias
e este aqui a dormir na rua, vinho no bucho
cavalo na cabeça.
Os prédios em pé os carros à porta os seus testículos
a chuva escorre pelas fachadas, quase como se eles se viessem
ejaculação precoce chuva ácida.
Estes prédios estão prontos para nos foder,
os seus tijolos veneno em nós, feito por nós
e a sepultura mais alta e mais alta.
E maior.

A cidade à tarde e eu de phones e as pessoas falam
de mim e a música fala delas e de mim.
Os pés ardem-me, as feridas da noite anterior infectam.
É de tarde e eu ando por aqui, não tenho para onde ir.
O primeiro prédio cai em mim.

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