Hoje é o meu último dia de vida. Digo isto não por ter tido uma premonição, ou por algum espirita ou bruxo mo ter dito, mas porque fui condenado à morte. Depois de 20 anos de recursos desisti. Aceitei a minha morte, apesar de continuar a negar aquilo de que me acusam. Eu não violei aquelas 6 raparigas.
Perguntam-me se eu quero um padre, para me confessar e pedir a extrema-unção. Mas o que é que um padre vai fazer, quando o veneno estiver a fluir nas minhas veias, quando a minha respiração diminuir lentamente, aos poucos, até os meus olhos se fecharem e eu dar o meu último suspiro? O que é que um padre pode fazer nessa altura? Nada. Não quero padre nenhum. Quero morrer junto com os meus pecados. Leva-los comigo para a cova.
O segundo luxo que me dão é escolher a minha última refeição. O guarda risse quando eu respondo: qualquer coisa, desde que feita pela minha mãe. Este guarda chama-se William. O William simpatiza comigo, já trabalha no corredor da morte há pelo menos 13 anos. Mas apesar de simpatizar comigo, acha que fui eu que matei aquelas 6 raparigas. O que eu não consigo perceber é como é que ele pode gostar um pouco de mim, se tem a convicção de que sou culpado. O que eu não consigo compreender é como é que alguém pode ter direito a luxos, depois de ser declarado culpado de violar, matar, estripar e desmembrar 6 raparigas de onze anos. Mas o que eu não consigo compreender de maneira alguma é como é que alguém consegue manter alguma coisa no estômago sabendo que vai morrer dentro de poucas horas. Vomito tudo cá para fora.
Faltam 15 minutos para a minha morte e estou a escrever isto, como se de um diário se tratasse. Não, melhor, uma carta. Não sei é para quem, mas sei que hão-de encontra-la.
O que eu vos quero mesmo dizer no meio disto tudo é algo que nunca disse a ninguém. Não fui eu que matei aquelas 6 raparigas. Não as 6. Apenas 5. A última foi uma cópia, imitada por algum amador. Não tinha nem a minha arte nem o meu engenho. Como podem ver nunca menti, disso não me podem acusar. Sou um homem com princípios.
domingo, 21 de março de 2010
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