O que foi dito

domingo, 21 de março de 2010

O homem da boa-noite

Todas as noites o velho vinha desejar boa noite, pelo menos três vezes. Aquele centro comercial era a sua segunda casa, e as pessoas que lá trabalhavam a sua única família. Ninguém sabia verdadeiramente que tipo de doença mental ele tinha, mas alguma havia de ser. O atraso na fala e no raciocínio eram mais do que evidentes. No entanto, não havia quem não o cumprimenta-se, quando ele, pontualmente, visitava cada loja e dizia: buoa nuote vizinho. Era assim que era carinhosamente tratado, por vizinho.
Todos na cidade o conheciam, pois várias vezes era encontrado a pedir boleia para voltar para casa, do outro lado da ponte. Muitos donos de cafés e restaurantes davam-lhe comida em troca de pequenos trabalhos, como despejar o lixo ou ajudar a arrumar a esplanada. E ele fazia-o, satisfeito, não só por saber que assim tinha uma refeição garantida, mas também pelo prazer do convívio e pela vontade de se sentir útil. E depois partia, para junto das estradas ao pé do rio, com um saco de frango assado ou um pacote cheio de pastéis, a pedir boleia aos carros que passavam.
Quando não conseguia boleia, tinha que fazer o caminho de volta para casa a pé, e por mais de uma vez foi espancado por bandos que achavam divertido fazer sofrer esta pessoa, que não queria mais do que desejar boas noites às pessoas. Mas isso não o fazia desistir. Lembro-me de falar com ele, à porta da loja onde trabalho e ver os hematomas na sua cara, o sangue coagulado, roxo. Os cantos da boca cheios de saliva seca. Mas mesmo assim com um sorriso na cara. A dizer: buoa nuote vizinho. Shá shó falta uma horrinha.
Até que um dia a ponte fechou para obras. E eu nunca mais o vi, nunca mais soube nada dele. Durante quatro anos este homem veio-me desejar às boas noites religiosamente. Não faltou um dia. Indiferente ao tempo, aos espancamentos, ao ter que andar quilómetros para voltar a casa. E eu só nesse dia é que me apercebi que não sabia o nome dele. Perguntei aos meus colegas mas nenhum sabia. Fui a outras lojas e falei com os funcionários, e quase todos me responderam o mesmo: não sabiam. Apenas um me respondeu de forma diferente: oh, é o vizinho. E era.
Nunca mais o vi, nem depois da reabertura da ponte.Tenho para mim que o dia em que a ponte fechou foi o dia em que o vizinho morreu. Paz à sua alma.

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