O que foi dito

domingo, 21 de março de 2010

Júlia

Fechei os olhos e vi-te todas as vezes que te vi, pela primeira vez. Fiz isto no dia em que tu fechaste os teus, para nunca mais os abrires. Eu era um e tu eras uma, eramos dois, até nos conhecermos. Depois eramos só um, outra vez.
Fecho os olhos e vejo a primeira vez que te vi, há cinquenta anos, e juro que bastava o olhar para perceber como a tua pele era sedosa. Bastou um olhar para saber que essa seda um dia roçaria na minha pele, áspera, fazendo ambas a simbiose perfeita. Vejo aquele teu sorriso envergonhado e percebo agora que não era vergonha, era certeza. Vejo o azul dos teus olhos e desejo beijá-lo, só mais uma vez.
Fecho os olhos e vejo a primeira vez que fizemos amor, meu amor. Depois do nosso casamento. A tua beleza foi a calma que me fez dizer-te: tem calma. E eu dentro de ti e tu dentro de mim. Um só já muito depois de o sermos.
Fecho os olhos e vejo a última vez que te vi e beijo o teu rosto enrugado uma última vez e vejo uma lágrima cair-te na face, uma última parte minha em ti. Sempre disseste que querias ir antes de mim, que não saberias o que fazer se algo me acontecesse. Eu também não sei Júlia. Quase te ouço dizer: tens os miúdos. Mas os miúdos já não são miúdos e têm os seus próprios miúdos. E eu só tenho é medo e saudade.
Fechei os olhos pela última vez.

Sem comentários:

Enviar um comentário